Vida de Dante

Ensaio de Eduardo Sterzi,
autor de "Por que ler Dante"

O ano é 1321. O embaixador de Ravena ― depois de mais de um mês de missão diplomática em Veneza, da qual resultaria a paz entre as duas cidades ― está retornando para a corte de Guido Novello da Polenta. Não se desloca por mar, mas por terra, atravessando os pantanosos e insalubres arredores de Comacchio. Segundo especula o cronista Filippo Villani, a viagem marítima teria sido proibida pelos venezianos, por temerem que o embaixador, com seu inigualável poder retórico, convencesse o almirante a colocar a frota sob o domínio de Ravena. Em alguma hora indeterminada da noite de 13 para 14 de setembro, o embaixador morre, provavelmente acometido de malária. Tem pouco mais de 56 anos; não atingiria, portanto, os setenta que, conforme registrara, na trilha de Aristóteles e das Escrituras, reputava a idade perfeita. Conseguira, porém, nos meses anteriores, concluir o monumental poema ― cem cantos, totalizando 14.233 versos ― que eternizaria seu nome. O embaixador chamava-se Dante (corruptela de Durante, seu nome de pia) Alighieri; o poema intitulava-se, então, Comedìa, numa grafia em que os limites entre o dialeto toscano e o latim medieval, e, portanto, entre a cultura vernacular e aquela produzida à sombra da Igreja, não são nítidos. (O adjetivo “divina”, proposto inicialmente por Boccaccio em sua biografia de Dante ― então significando, em sentido lato, algo como “grandiosa”, “ímpar”, “inestimável” ―, só seria ajuntado ao título em 1555, numa edição realizada em Veneza pela tipografia de Gabriele Giolito e sob a responsabilidade do erudito Lodovico Dolce ― agora indicando, em sentido estrito, que a matéria do poema tinha cunho teológico.1)

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O resumo daquela noite de setembro não é, por certo, glorioso: um reles mosquito das terras alagadiças da Itália setentrional ― se a hipótese da malária for correta ― pôs termo a uma das mais extraordinárias trajetórias de toda a cultura européia. No entanto, como o próprio Dante demonstra em seus escritos (não só na Comédia, mas também na Vida nova, seu primeiro livro), uma vida mais verdadeira ― uma pós-vida ou sobrevida, no sentido pleno da palavra ― apenas começa quando a vida terrena chega ao fim; e, se não houver (como sabê-lo, sem fé?) a vida eterna como segunda chance, há, contudo, a posteridade, embora reservada a poucos. A fama, que já rondava o poeta em seus últimos anos de vida, agora, com sua morte, se cola a seu nome e a sua obra, embora não de uma vez por todas. Projetadas num gráfico, as significativas oscilações da fama de Dante nos séculos seguintes desenhariam, para um observador atento, os movimentos não-lineares ― contraditórios, dialéticos ― pelos quais se constituiu a moderna cultura literária italiana e européia. Basta lembrar que, ao entusiasmo inicial com sua obra, alimentado em larga medida por esse genial leitor e biógrafo ― e continuador ― de Dante que foi Boccaccio, se sucederam séculos de desinteresse ou, pelo menos, de ambivalência frente à Comédia e aos demais textos dantescos. Dante era misturado demais ― vulgar demais, complexo demais ― para o gosto médio “humanista” e, depois, “iluminista”: em sua obra, as tendências de pensamento mais conflituosas coexistem numa mesma sequência de versos, as temporalidades mais diversas encontram-se em choque, imbricam-se sem conciliar-se, interpelam-se e questionam-se umas às outras. Dante ― em alguns aspectos medularmente medieval, em outros anunciador dos novos tempos que seriam conhecidos pelo rótulo impreciso de “Renascimento” ― só alcançou uma mais ampla legibilidade nos séculos XIX e XX: sem medo de anacronismo, pode-se dizer que sua obra é, em alguma medida, um fenômeno romântico e moderno. Francesco D’Ovidio tem razão quando, em 1901, lembrando a então recente proliferação dos estudos dantescos, diz que “o século XIX, se pode, por outros motivos, ser definido como o século do vapor ou da eletricidade ou das ordens livres ou das reivindicações nacionais, nós poderíamos com idêntica razão saudá-lo como o século de Dante”2. Examinando a questão da modernidade de Dante por outro ângulo (não o dos estudiosos, mas o dos poetas), podemos acompanhar Friedrich Schlegel quando chama Dante “o sagrado pai fundador da poesia moderna”3. E lembrar T. S. Eliot, que sentenciou, numa frase peremptória ― hiperbólica e justa a um só tempo: “Dante e Shakespeare dividem o mundo moderno entre si; não há um terceiro”.4

Entretanto, bem antes de qualquer oscilação, antes de qualquer rejeição ou ambiguidade por parte de leitores doutos “renascentistas”, e muito antes da duradoura consagração a partir do Romantismo e do “Risorgimento5, o que temos, com a morte de Dante, são funerais solenes, promovidos pelo podestà 6 de Ravena, Guido Novello da Polenta, de quem Dante foi amigo e, como demonstra a sua participação na importante missão a Veneza, um dos principais conselheiros. E temos também, segundo Boccaccio, uma excitada competição entre os poetas da região da Romagna para decidir quem comporia o epitáfio a ser gravado no suntuoso túmulo definitivo que Guido tencionava construir para acolher os ossos de Dante (mas que não construiu, devido à perda do poder, seguida do exílio e, logo depois, em 1323, de sua morte). Dante começava a conquistar, no juízo dos contemporâneos que lhe sobreviveram, aquela dimensão mítica que, ao longo de toda a sua obra, projetou para si.

Os próprios florentinos, que o haviam banido, não tardariam a reconhecer o seu valor. Pouco mais de cinquenta anos depois de sua morte, em 1373, a administração da cidade, atendendo a uma solicitação de um grupo de habitantes, contratou Giovanni Boccaccio, o autor do Decameron, para ler e comentar a Comédia publicamente. Inaugurava-se , assim, uma tradição que vem até hoje: a tradição das lecturae dantis, aulas com explicações detalhadas de cada canto do poema. Boccaccio, desde que escrevera sua primeira versão da biografia de Dante, entre 1351 e 1355 (outras duas versões, abreviadas, seriam preparadas no início da década seguinte), era considerado, com razão, o maior especialista em sua obra. E mesmo desde antes: não esqueçamos que, além de escritor, Boccaccio foi um grande copista, tendo sido responsável por alguns dos manuscritos decisivos por meio dos quais nos chegaram os textos de Dante (nenhum manuscrito do punho do poeta sobreviveu ao seu tempo).

A primeira das Esposizioni sopra la Comedia di Dante (título com que seriam publicadas as aulas de Boccaccio) foi ministrada no dia 23 de outubro de 1373, na deteriorada igreja beneditina de Santo Stefano in Badia. A audiência era formada sobretudo por gente do povo, mas certamente alguns literatos também frequentaram as aulas. No contrato, previa-se que os comentários deveriam se desenrolar durante todo o ano, dia após dia, com exceção dos feriados e fins de semana; no entanto, depois de aproximadamente sessenta sessões, no início de 1374, o professor caiu doente e a atividade foi interrompida na leitura do canto XVII do Inferno. De qualquer modo, se não fosse a doença de Boccaccio, o recrudescimento da peste em Florença, entre os meses de março e setembro, impediria a continuação das aulas. Vale lembrar que, para alguns estudiosos, a causa da suspensão não foi a enfermidade de Boccaccio, mas sim o grande conflito interior vivido pelo escritor, que via sua dedicação a Dante vacilar sob as pressões tanto dos teólogos que acusavam Dante de heresia quanto dos humanistas que reprovavam a vulgarização do poema nas leituras públicas.

Boccaccio morreu em 21 de dezembro de 1375, na cidade de Certaldo, pouco mais de um ano depois da morte de seu grande amigo, Francesco Petrarca, autor dos Rerum vulgarium fragmenta (nome latino do célebre Cancioneiro) e continuador supremo da vertente lírica da obra de Dante. Fechava-se assim, mortos os três grandes escritores da transição entre a época que chamamos de Idade Média e aquela conhecida como Renascença, o ciclo maior ― irrepetido ― da literatura vernacular italiana. Franco Sacchetti, que se faria sequaz do Boccaccio narrador com suas Trecentonovelle, lamenta em termos justos a morte do precursor:

Agora nos falta toda poesia
e vazias estão as casas do Parnaso,
depois que a morte tirou-lhes todo valor.
…………………………………………………….
Como devo esperar que apareça Dante,
quando já não se encontra quem o saiba ler (e explicar)?
Foi Giovanni, que está morto, quem nos ensinou.7

Giovanni Boccaccio, na verdade, ensinou não apenas seus contemporâneos a ler Dante, mas também os pósteros. Disputas entre seus herdeiros embargaram uma imediata publicação das Esposizioni, e Benvenuto da Imola, em seu comentário da Comédia redigido entre 1375 e 1380, não pôde levar em consideração as lições de Boccaccio; porém, vários dos principais comentadores seguintes do poema ― Francesco da Buti (1385-95), o Anônimo florentino (por volta de 1400), Filippo Villani (1405), Cristoforo Landino (1481), Pier Francesco Giambullari (1538-48), Giovan Battista Gelli (1541-63) ― demonstram ter conhecimento das explicações boccaccianas para a Comédia. Este conhecimento se deu pela consulta a manuscritos das Esposizioni; devido às já referidas oscilações na fortuna crítica de Dante, os comentários de Boccaccio só ganharam uma edição impressa em 1724, graças ao empenho do literato Anton Maria Salvini, professor de grego em Florença, tradutor de Homero e de outros poetas e filósofos, entusiasta da língua toscana (na qual tanto Dante quanto Boccaccio escreveram, base principal do italiano moderno).

É compreensível que as Esposizioni, embora tivessem como primeiro público os cidadãos comuns de Florença, tenham servido (e se restringido), por sua configuração de minuciosas leituras de cada canto da Comédia, sobretudo aos estudiosos da obra dantesca. Entre os demais leitores, foi a biografia de Dante escrita pelo mesmo Boccaccio que mais chamou e ainda chama atenção. Entre as Esposizioni e a Vita di Dante (também conhecida como Trattatello in laude di Dante ― Pequeno tratado em louvor de Dante)8
, há significativas diferenças de compreensão e avaliação do empreendimento e do legado de Dante, diferenças que se devem menos a uma transformação individual de Boccaccio do que a uma bem mais ampla mutação cultural. Na biografia (ou Trattatello), Boccaccio admite, em alguma medida, a existência de um componente sobrenatural na escrita da Comédia. Nisto seguia o próprio Dante, que anota, numa passagem célebre do “poema sacro”, que, para sua redação, se mobilizaram “mão e céu e terra” (mano e cielo e terra, Par. XXV 2): ou seja, a totalidade da Criação. Diferentemente, nas Esposizioni, passados já mais de dez anos, Boccaccio coloca-se em confronto ― direto, mas não declarado ― com um comentador precedente, Guido da Pisa, que dizia que a Comédia fora inspirada diretamente pelo Espírito Santo. Boccaccio agora nega à Comédia a pretensão de ser lida como um texto profético; temos já aqui o germe do entendimento de que ― como, séculos depois, o crítico norte-americano Charles S. Singleton sintetizaria numa fórmula lapidar ― “a ficção da Comédia é de que ela não é ficção”. Contudo, a principal diferença entre as Esposizioni e o Trattatello ― aquela diferença que realmente contou para os leitores ― não está nessa hesitação entre uma leitura teológico-medieval e outra profano-humanista da Comédia, mas sim no intervalo entre a hermenêutica e a narrativa, ou seja, no intervalo que separa as disciplinas de distanciamento das estratégias de envolvimento. Na biografia, nos mesmos lugares onde depois encontraria uma especulação sobre as fontes de um determinado verso ou análise pormenorizada de alguma figura mitológica ou histórica, o leitor depara com relatos de episódios da vida de Dante, narrados com a astúcia e a graça características do autor do Decameron.

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A primeira versão da biografia, mais extensa, remonta, conforme já dito, aos anos entre 1351 e 1355; a segunda versão, resumida, foi composta por volta de 1360; a terceira, também um resumo, em torno de 1365. Boccaccio concebeu-a não como um texto totalmente autônomo, mas sim como uma espécie de texto complementar ― algo como um prefácio ― às cópias da Vida Nova e da Comédia sob sua responsabilidade. Revelador dessa continuidade ideal entre o Trattatello e os textos dantescos, como observa Guglielmo Gorni, é o fato de que, no manuscrito conhecido como Chigiano L.V.176, a Vida Nova transcrita por Boccaccio se siga, sem interrupção alguma, à biografia, iniciando-se na mesma página em que aquela termina (quando o usual era, já então como hoje, que começasse em outra página). E mais revelador ainda: o explicit da biografia e o incipit da Vida Nova ― isto é, as marcações tradicionais de fim e de início dos textos, escritas em latim, segundo a prática da época ― estão reunidos numa única rubrica, quase como se constituíssem um texto só.

Boccaccio, com o Trattatello, não nos oferece menos que a primeira e até hoje imprescindível biografia de Dante. Concorrem com esta, como testemunhos trecentistas fundamentais para o conhecimento da vida de Dante, e sobretudo para o conhecimento dos primórdios do mito de Dante (uma vez que vida e mito, neste caso, são indissociáveis), apenas o breve capítulo dedicado a ele na Nova Crônica de Giovanni Villani, cuja primeira versão já circula em 1333, só doze anos depois da morte de Dante, e as notícias biográficas registradas pelos primeiros comentadores da Comédia. Somente a biografia escrita por Leonardo Bruni no século seguinte ― Della vita, studi e costumi di Dante (Da vida, estudos e costumes de Dante) ― poderia ser comparada à de Boccaccio em volume de informações e em repercussão. Paralelamente às passagens autobiográficas encontradas nas obras do próprio poeta, sobretudo na Vida Nova e na Comédia, a narrativa da sua vida por Boccacio está na origem da imagem de Dante que perdura até hoje. Este feito é tão mais assombroso se lembramos que Boccaccio jamais conheceu Dante pessoalmente, baseando seu relato naquilo que ouviu de interlocutores do biografado.

Falei em “imagem de Dante”, e tal expressão deve ser entendida, antes de tudo, em sentido literal. Hoje, não há quem não conheça o perfil de Dante: seu “perfil aquilino”, evocado pelo russo Aleksandr Blok em 1909 (no poema “Ravena”, que Augusto de Campos traduziu para o português)9. Mais do que qualquer outro, foi Boccaccio quem nos legou esse perfil, ao descrever a aparência física de Dante, com implicações evidentes para sua caracterização psicológica e moral:

Foi […] este nosso poeta de estatura mediana, e, depois que chegou à idade madura, andou bastante encurvado, e era o seu andar grave e tranquilo, sempre muito elegantemente vestido naquele traje que era conveniente à sua maturidade. O seu rosto era alongado, e o nariz aquilino, e os olhos antes graúdos que pequenos, as maxilas grandes, e o lábio de baixo avançava em relação àquele de cima; sua pele era morena, e os cabelos e a barba espessos, negros e crespos, e sempre na face melancólico e pensativo.

É curioso, no entanto, que desde bastante cedo as representações pictóricas de Dante contrariem, num ponto específico, o retrato do artista traçado por Boccaccio: em afrescos e telas, mas também nas ilustrações que acompanham alguns manuscritos e edições impressas, Dante aparece sem barba. Recordemos o célebre retrato pintado por Domenico di Michelino em 1465, que hoje está no Duomo (Catedral de Santa Maria del Fiore) de Florença, e para cuja elaboração, por certo, foi decisiva a descrição de Boccaccio: com a mão esquerda, um Dante imberbe parece oferecer sua Comédia a Florença, que aparece ao fundo, distanciada, com seus portões cerrados (a cidade, afinal, o banira); com a mão direita, o poeta aponta para os três reinos do além-túmulo. Dante aparece igualmente imberbe em obras de Andrea del Castagno e Sandro Botticelli no Quatrocentos, de Rafael e Signorelli no Quinhentos, assim como de Eugène Delacroix e Gustave Doré no Oitocentos. Nicola Zingarelli, numa bela monografia sobre Dante escrita no início do século XX, chega a uma solução conciliadora (mas não muito convincente) entre as palavras de Boccaccio (que, por sua vez, retomam palavras do próprio Dante, no canto XXXI do Purgatório) e as imagens dos artistas: “crespa e negra é a barba mesmo se não a deixamos crescer”.10

É, porém, o perfil psicológico e moral preparado pioneiramente por Boccaccio, e não a caracterização física, que mais contribuiu para a formação da imagem póstuma de Dante. Boccaccio não depreende esse perfil apenas das conversas com contemporâneos de Dante, mas também, agudo leitor-intérprete que é, de algo como uma imaginativa “psicanálise” do personagem-Dante tal como este é dado a ver e conhecer pelo poeta-Dante em suas obras. A crer-se em Boccaccio, Dante foi “admiravelmente ordenado e composto” em seu comportamento doméstico e público; comia e bebia moderada e regradamente, sempre nas “horas certas” e “sem ultrapassar a marca da necessidade”; repugnavam-lhe aqueles que “não comem para viver, mas antes vivem para comer”; só raramente falava sem ser indagado, e, quando o fazia, era “refletidamente e com voz conveniente à matéria sobre a qual discorria”; sempre que lhe requeriam, era “eloquentíssimo e facundo, e com ótima e pronta pronunciação”; deleitou-se, em sua juventude, com a música, tendo sido amigo dos melhores cantores e músicos, e tendo escrito poemas que foram musicados por estes; foi excelente na poesia amorosa porque, como nenhum outro poeta, sentiu o amor “fervorosamente”, e ultrapassou toda a escrita poética de seu tempo ao buscar um modo mais elevado de dizer de suas “paixões”; frequentemente afastava-se das pessoas, em busca da sábia solidão em que “suas contemplações não seriam interrompidas”; se estava entre as gentes, e alguém tentava interromper suas divagações, ele não respondia “até que tivesse concluído ou descartado a sua imaginação” (muitas vezes, acrescenta Boccaccio, isto ocorreu quando Dante estava à mesa ou caminhando com amigos); empenhava-se mais do que qualquer outro em todos os seus compromissos, e especialmente no estudo, em que foi “assiduíssimo” (mesmo em meio a uma festa era impossível convencê-lo a deixar os livros de lado); sua “memória firmíssima” e seu “perspicaz intelecto” garantiam-lhe a vitória em disputas teológicas e filosóficas; seu “altíssimo engenho” e sua “sutil invenção” permitiram-lhe construir a grandiosa obra pela qual é famoso; por certo, não rejeitava as glórias poéticas, mas só aceitaria ser coroado de louros naquela Florença que o exilara; conservou sempre sua altivez e seu orgulho, tão extremados que chegavam a ser confundidos com desdém em relação aos outros e suas habituais maquinações e baixezas11; prova disso é que, embora este fosse seu maior desejo, não tenha aceito retornar a Florença mediante o expediente sórdido que lhe foi proposto (admitir uma culpa que não era sua, pagar, ainda que reduzidamente, por ela, e então ser perdoado, libertado e reintegrado à vida florentina…); demonstrou ser “valente” e “fortíssimo” em todas as “adversidades” por que passou; apresentou-se “impaciente ou hostil” (ou, como Boccaccio diz na segunda redação da biografia, “impacientíssimo”) somente uma vez, quando, tendo sido levado ao exílio por seu próprio partido, o dos Guelfos, que era o partido de seus antepassados, acabou trocando-o pelo dos Gibelinos, permanecendo furioso com os antigos companheiros até a morte. Impossível não sorrir diante da observação conclusiva do capítulo da biografia dedicado ao “caráter” de Dante:

Entre tanta virtude, entre tanta ciência, que se demonstrou acima ter existido neste admirável poeta, encontrou amplíssima acolhida a luxúria, e não somente nos anos juvenis, mas ainda nos maduros. Tal vicío, ainda que seja natural e comum e quase necessário, na verdade não se pode aprovar e nem mesmo desculpar dignamente. Mas quem será entre os mortais justo juiz para condená-lo? Eu não. Oh pouca firmeza, oh bestial apetite dos homens, que coisas não podem as mulheres fazer conosco, se elas quiserem?

Em muitos pontos, não há como saber se este retrato é de fato preciso quanto à sua concordância com a vida indocumentada de Dante, mas, seja como for, sua precisão crítica ― a síntese que oferece da psicologia e da ética implícitas no personagem-Dante da Vida Nova e da Comédia ― é inegável. Quando, mais adiante, falarmos da obra de Dante, poderemos confirmar a pertinência do retrato traçado por Boccaccio para a interpretação de seus textos. Por agora, vejamos o que o Trattatello tem a nos dizer sobre o nascimento e os primeiros anos do poeta. Confrontemos o que ali está registrado com o que o próprio Dante nos conta sobre sua infância. E tentemos, quando possível, ir um pouco além do mito, um pouco além da lenda, um pouco além do amálgama de obra e vida proposto pelo poeta e por seus primeiros leitores, com apoio nas pesquisas e nas ponderadas conjeturas dos mais respeitados biógrafos de Dante da atualidade, Giorgio Petrocchi e Robert Hollander.

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Dante foi batizado em 26 de março de 1266, com o nome de Durante, possível homenagem ao avô materno. A data do batismo não nos permite inferir nada quanto ao dia e ao mês do nascimento: segundo uma antiga tradição florentina, todas as crianças nascidas na cidade no ano anterior eram conduzidas à pia batismal da igreja de São João (San Giovanni) no mesmo dia, no Sábado de Aleluia. (A festiva cerimônia pública, uma das principais do calendário de Florença, era acompanhada por uma multidão.)

Para precisar a data do nascimento, os estudiosos recorreram, de início, ao testemunho do próprio Dante, que, numa passagem do canto XXII do Paraíso, diz ter nascido sob o signo de Gêmeos. E, “a partir de um complexo e minucioso exame dos testemunhos internos e externos”, Giorgio Petrocchi pôde afirmar, “com quase absoluta certeza”, que Dante nasceu em algum dia entre 14 de maio e 13 de junho de 1265, e “mais provavelmente lá pelo fim de maio”12. Avançar além disso na determinação de uma data é irresponsabilidade.

Ao relatar o nascimento do futuro poeta, Boccaccio não se abstém frente ao impulso mitologizante. Segundo conta, a mãe de Dante, quando grávida, teve um sonho profético em que se via dando à luz ao pé de um “altíssimo loureiro”, ao lado de uma fonte de águas claras. O filho, no sonho, logo passava a alimentar-se dos frutos do loureiro e a beber da fonte; tornava-se, então, “um grande pastor”, que se comprazia à sombra da árvore; como desejava os frutos que caíam ao chão, também ele se deixava cair; mas, para surpresa da mãe sonhadora, do solo não se erguia o filho, mas “um belíssimo pavão”. Comovida pela maravilha daquela visão, a mãe de Dante teria despertado. Boccaccio, tão logo reproduz o sonho, põe-se a explicá-lo alegoricamente: o loureiro, sob o qual a mãe pariu o filho, representaria “a disposição do céu por ocasião do seu nascimento”, propícia à “magnanimidade” e à “eloquência poética” ― duas atitudes simbolizadas pela “árvore de Febo” (Apolo), com cujas folhas os poetas são coroados. Os frutos, que serviram de alimento ao poeta recém-nascido, representariam os efeitos de tal disposição, isto é, “os livros poéticos e as suas doutrinas”, uma vez que, destes, Dante tão frequente e intensamente se nutriu. A “fonte claríssima”, da qual parecia beber, seria uma figura da “filosófica doutrina moral e natural”: a água da filosofia, assim ingerida, encontrava-se no estômago do poeta ― “isto é, no seu intelecto” ― com os frutos da poesia. A súbita metamorfose em pastor demonstra, em sua prontidão, a excelência do gênio ou engenho (ingegno) dantesco; e Dante pode ser dito pastor na medida em que forneceu alimento ― pastura, “pasto” ― “aos outros engenhos disto necessitados”: pastor espiritual a ministrar a nutrição espiritual13. O esforço para alcançar os frutos deve ser interpretado como “o ardente desejo […] pela coroa de louros” (desejo que não deve ser confundido com vaidade, uma vez que, como esclarece Boccaccio, só se deseja a coroa “para dar testemunho do fruto”…). E se Dante cai em busca dos frutos que caem, esta queda deve ser entendida como a morte, ocorrida quando ele mais desejava ser laureado. Finalmente, a metamorfose derradeira em pavão aludiria à sobrevida de Dante por obra de sua Comédia. As analogias que Boccaccio traça entre a Comédia e o pavão são extremamente reveladoras de certo modo medieval de pensar: 

O pavão, entre outras propriedades suas, tem, em sua aparência, quatro notáveis. A primeira é que ele tem pena como de anjo, e naquela tem cem olhos; a segunda é que ele tem sujos pés e calma andadura; a terceira é que ele tem voz muito horrível de ouvir; a quarta e última é que a sua carne é odorífera e incorruptível. Estas quatro coisas tem plenamente em si a Comédia do nosso poeta.

Nesta surpreendente comparação, mais do que a argumentação medieval, o que chama a atenção é o choque que ela expõe entre as concepções dantesca e boccacciana de poesia, e, antes, entre a época e a cultura correspondente de um e de outro: basta notar, por exemplo, que, se os pés do pavão-Comédia são ditos “sujos” (sozzi), é porque Dante a escreveu em vernáculo, isto é, na língua das ruas, e não em latim; e se o seu modo de andar é dito tranquilo, é em alusão à “humildade do estilo”, adequada à escrita de uma “comédia”.

Uma infância marcada, portanto, desde o início, pelo destino de poeta? O sonho da mãe de Dante ― independentemente de qual interpretação, mais ou menos fantasiosa, se queira dar-lhe ― é um mito familiar, que orientou sua formação, ou um mito literário, forjado completamente a posteriori?

Pouco se sabe de seguro dos primeiros anos do poeta, a não ser aquilo que ele mesmo nos conta em suas obras, e que é inevitavelmente distorcido segundo as necessidades da poesia. A autobiografia mítico-poética da Vida Nova começa quando o poeta já tem nove anos14. Foi com esta idade que aconteceu o primeiro evento digno de entrar para sua narrativa da descoberta ou construção de si como poeta: o encontro com Beatriz. Ela também tinha nove anos, mas estava no início do seu nono ano, enquanto ele já chegava ao fim do seu. A aparição da menina teve, para o juveníssimo Dante, o efeito de uma revelação: a revelação do Amor, que o dominaria dali por diante. Uma segunda e consequente revelação ― a revelação da Poesia ― viria com um novo encontro com Beatriz, nove anos depois, quando ambos já estavam em seus dezoito. Beatriz vem caminhando pela rua acompanhada de duas senhoras de mais idade; ao passar por Dante, vira-se em sua direção e o saúda. Pela primeira vez, Dante ouve a voz de Beatriz (o primeiro encontro fora silencioso). Como que inebriado, Dante afasta-se das pessoas e recolhe-se ao seu quarto solitário (al solingo luogo d’una mia camera), onde põe-se a pensar sobre a amada. Pensando nela, sobrevém-lhe um “suave sono”, no qual lhe aparece “uma maravilhosa visão”: era como se houvesse, dentro do seu quarto, uma nuvem cor de fogo, dentro da qual o poeta distinguia a figura de um senhor, alegre quanto a si mas de aspecto amedrontador; este senhor ― personificação do Amor ― dizia-lhe várias coisas que ele não compreendia, e uma que entendeu, a frase latina “Ego Dominus tuus” (“Eu sou o teu Senhor”); nos braços deste senhor, dormia uma pessoa nua, envolta apenas por um pano “sanguíneo” (vermelho escuro); nela, Dante reconhecia Beatriz; numa das mãos, o senhor trazia um objeto ardente, e dele dizia a Dante, também em latim, “Vide cor tuum!” (“Olha aqui o teu coração!”); ao som de suas palavras, Beatriz despertava e passava a comer o coração que lhe era oferecido pelo senhor; quando ela terminava, o senhor estava chorando, e ela se recolhia aos seus braços, como se estivesse morta (mi parea che si ne gisse verso lo cielo). Tão angustiado Dante ficou com esta visão, que despertou ― e, pensando no que lhe fora dado ver, se propôs comunicá-lo “a muitos dos quais eram famosos trovadores naquele tempo”. Foi então que escreveu seu primeiro soneto, A ciascun’alma presa (“A cada alma enamorada”), o qual foi enviado aos poetas mais célebres da época com um pedido de que o comentassem tentando decifrar o sentido da visão nele recriada.

Temos aí, no recorte de sua própria vida por Dante, os dezoito primeiros anos reduzidos a um mito de origem da poesia, sem nenhuma referência explícita a pessoas, lugares e situações concretas (o nome de Beatriz é apresentado antes como apelido, significando “aquela que confere beatitude”, do que como nome de fato, e o nome de Florença jamais é declarado, embora a cidade seja reconhecível, como cenário dos eventos narrados, se sabemos interpretar os detalhes). O que podemos, então, dizer do que ficou de fora desse relato?

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Quando o menino Durante nasce, em 1265, Florença é uma das maiores cidades da Europa. Dentro de seus muros e nas cercanias rurais, possui aproximadamente 100 mil habitantes. Para a época, era muito: Paris, detentora, então, da maior concentração demográfica do Ocidente, tinha apenas o dobro, 200 mil. A grandeza de Florença, porém, não se resumia a seu contingente populacional, medindo-se antes pela riqueza que produziu, acumulou e fez circular, e pela verdadeira erupção cultural que essa riqueza patrocinou, antes, durante e depois dos tempos de Dante. Vale notar ainda que essa riqueza, com a autonomia que ela proporcionou em relação às autoridades tradicionais aristocráticas e eclesiásticas, também esteve na base do sistema político florentino, democrático à sua maneira, o qual foi determinante para a consolidação das noções modernas de individualidade e subjetividade, noções fundamentais para algumas características inovadoras do sistema poético dantesco, como já se sabe pelo menos desde a leitura de Dante pelo historiador Jacob Burckhardt, no século XIX. Como argumenta Burckhardt, Florença, contrastando o individualismo de seus cidadãos com o individualismo dos tiranos que governavam outras cidades italianas, constituiu nada menos que o “primeiro Estado moderno do mundo”: “Aqui, um povo realiza o que nos Estados governados por um príncipe é assunto de uma só família”.

Lembremos que, na Idade Média, a Itália não era propriamente um país (a unificação política do território só se daria séculos depois, em 20 de setembro de 1870, com a tomada de Roma, que era até então domínio papal, pelas forças do rei Vittorio Emmanuele II), mas uma colcha de retalhos, resultante da fragmentação do antigo Império Romano, com a decorrente contiguidade, muitas vezes não pacífica, entre as diversas cidades-estado ― ou, como são denominadas em italiano, “comunas”. Estas só não eram completamente independentes porque se encontravam sob a pressão simultânea do Papado e do Império15, forçadas a aderir ora a um, ora ao outro. O próprio Dante, na Comédia, lamentaria, irônico e amargurado, tal situação de permanente conflito:

Ai serva Itália, que és da dor hotel,
nave a que arrais no temporal não resta,
não dona de províncias, mas bordel!
…………………………………………………
e agora em ti não andam sem ter guerra
os teus viventes e um e outro se morda
que o mesmo muro e o mesmo fosso encerra.
Mísera, busca as costas que te borda
o mar, e depois olha no teu seio
se alguma parte tua em paz acorda.16

Acrescente-se que essa conflagração sem fim não se dava apenas entre diferentes cidades, com batalhas sucedendo-se por toda a península itálica, mas igualmente no interior de cada comuna, com as constantes disputas entre partidos e facções políticas. Quanto a isto, Florença era exemplar, e o próprio Dante provaria na carne o quão longe estas contendas podiam ir, com o banimento e a ameaça de ser queimado em praça pública caso regressasse. 

A grande divisão política florentina era aquela entre os Guelfos e os Gibelinos, isto é, grosso modo, entre o partido que apoiava o Papa e o partido favorável ao Império17. Os Guelfos, por sua vez, dividiam-se em duas facções, os Brancos, burgueses que haviam ascendido socialmente pelo comércio, e os Negros, provenientes da antiga nobreza decadente. Dante, embora oriundo de uma família tradicionalmente vinculada aos Negros, filiar-se-ia aos Brancos ao ingressar na carreira política, talvez por influência de seus amigos de juventude, como o poeta Guido Cavalcanti. Podemos imaginar Dante já em sua infância assombrado pelas ferrenhas brigas pelo poder. Lembremos, por exemplo, que, quando foi levado ao batistério, em março de 1266, vários de seus familiares guelfos encontravam-se exilados, à espera de retornar a Florença com a restauração do governo popular após a morte de Manfredo (rei da Sicília, filho do imperador Frederico II), que apoiava os Gibelinos.

Quando a matéria é a infância de Dante, caminhamos em terreno movediço, e quase tudo é hipótese, a desencavar dos escassos documentos à disposição. Não há dúvidas, no entanto, quanto à linhagem paterna de Dante, pelo menos no que se refere às gerações mais próximas (quanto à materna, a situação é menos clara). O pai, Alighiero Alighieri (ou Alighiero II), chegou a ser descrito jocosamente por Forese Donati, no duelo poético (tenzone) que este travou com Dante, como um usurário sem compaixão, indigno de sepultura cristã, quase um criminoso. O contexto do poema desculpa a calúnia, que não deve ser levada a sério. É bastante provável que Alighiero, de fato, emprestasse dinheiro, mas não há nenhuma informação consistente que permita à posteridade julgá-lo, por isso, mau. Teve quatro filhos de dois casamentos, e conseguiu conservar e mesmo aumentar o patrimônio familiar. Seu primeiro matrimônio foi com uma jovem chamada Bella, que se supõe ser da família Abati: filha, possivelmente, do juiz Durante degli Abati. Dante ― que, se a suposição da linhagem materna estiver correta, herdou o nome do avô ― é filho deste casamento, assim como também o foi uma moça de quem não se sabe o nome. Bella, mãe de Dante, morreu jovem (em alguma data desconhecida entre 1270 e 1275), e Alighiero casou-se em segundas núpcias com Lapa di Chiarissimo Cialuffi, que lhe deu outros dois filhos, o menino Francesco e a menina Tana.

Dos pais, ao menos explicitamente, Dante silencia em sua obra, seguindo a prescrição do decoro retórico tradicional conforme a qual o poeta não deve discorrer de seus parentes mais próximos. Entretanto, várias vezes, na Comédia, Dante nos fala de seus ancestrais, e um comovido encontro com seu trisavô Cacciaguida ― cavaleiro cruzado que morreu na Terra Santa ― ocupa três cantos (do XV ao XVII) do Paraíso. Pela voz de Cacciaguida, a história toda das antigas famílias de Florença é desfiada perante o poeta, e esta é uma história de decadência, a determinar ― é o que sugere Dante ― o descalabro de seus tempos. É do trisavô, ainda, que Dante ouve a profecia de seu exílio e solidão (claro que, quando escreve o poema, já está exilado há uns bons anos).

Fora do universo ficcional da Comédia, não foi, claro, de Cacciaguida, morto em 1147, que Dante ouviu a relação dos acontecimentos notáveis de sua cidade. Como já especulou Giorgio Petrocchi, entre os antepassados de Dante, foi quiçá seu avô paterno, Bellincione Alighieri, aquele decisivo para sua poesia: se a Comédia, entre outras muitas coisas, é também uma espécie de História Poética de Florença, foi provavelmente Bellincione o principal informante do poeta, a fonte central de sua memória histórica. Filho de Alighiero I, por sua vez filho de Cacciaguida, Bellincione nasceu em fins do século XII, e as últimas notícias que temos dele remontam a 1269, embora não seja impossível que tenha vivido até a adolescência de Dante. Bellincione não conheceu o avô Cacciaguida, mas cultuou a sua lembrança de herói morto em batalha e soube transmitir este culto a seu neto. Também os mitos guelfos, entremeados às mais neutras informações históricas, passaram de Bellincione a Dante, mas serão reinterpretados por este à luz das desventuras por que passou.

A meninice, Dante passou-a em Florença, na mesma casa em que nasceu, localizada na paróquia de San Martino del Vescovo, com alguns breves intervalos em outras propriedades da família, em Camerata e San Miniato a Pagnolle. Já aludi ao evento que Dante apresenta como decisivo para sua vida-e-poesia, o primeiro encontro com Beatriz, em 1274 (Beatriz que, na verdade, não se sabe quem de fato foi, e nem, ao certo, se realmente existiu, com este nome, fora da poesia de Dante; pode-se dizer que foi Boccaccio, na sua biografia de Dante, o inventor da Beatriz histórica, em complemento à Beatriz poética, ao identificá-la com Bice, filha de Folco Portinari, vizinho dos Alighieri ― identificação que até hoje não se pôde confirmar ou desmentir). Poucos anos depois, em 1277, mais exatamente em 9 de janeiro, é que se dá um evento decisivo para a vida irresgatada pela obra: a contratação do casamento com Gemma Donati, com a estipulação do dote pago pela família da noiva18. O casamento, à vera, só ocorreria em 1285, e o primeiro filho do casal nasceria dois anos após. Nenhuma menção a Gemma será encontrada nos textos de Dante, o que não deve ser interpretado como sinal de infelicidade no matrimônio: a menção, em matéria amorosa, a Beatriz e outras damas menos cotadas, e nunca a sua própria esposa, demonstra sobretudo o quanto a concepção dantesca de amor ainda devia à concepção dos trovadores provençais, que era a da cultura cavaleiresca e cortesã, segundo a qual haveria uma insuperável oposição entre o casamento e o amor.19

Como nota Petrocchi, o contrato do futuro casamento é importante para o conhecimento da vida de Dante na medida em que nos permite refutar como lendária a informação, que alguns biógrafos e comentadores tomaram por verídica, de que ele teria sido noviço no convento de Santa Croce. Seus primeiros estudos foram, pois, todos de natureza laica, junto a um dos vários professores particulares (chamados então doctores puerorum) de Florença. O que estes professores ensinavam? Basicamente, elementos de gramática, isto é, de língua latina, com leituras dos textos clássicos de Cícero e Virgílio, mas também, conforme supõe Petrocchi, de textos latinos mais leves, como os Disticha Catonis e as fábulas de Esopo. O dialeto florentino ― o idioma das ruas, mas também de alguns documentos da vida civil ― não era estudado na escola, mas ninguém desconhecia sua relevância, especialmente devido ao então recente surgimento de uma poesia vernacular. Outros vernáculos, sobretudo o francês e o provençal  (a língua do oïl e a língua do oc, como Dante as chamaria no De vulgari eloquentia, com base na diferença entre os seus modos de dizer o advérbio sim), eram falados pelos mercadores nos ambientes frequentados pelo pequeno Dante. Vale lembrar que as primeiras manifestações poéticas vernaculares da Europa haviam se dado nestas línguas ― com a épica em francês e a lírica em provençal ― a partir do século XII. Estes textos, numa época de intensa circulação cultural, chegaram também a Florença, pelas vozes de jograis, recitadores e leitores públicos. Podemos imaginar o menino ― e em especial o adolescente ― Dante imerso neste universo multilíngue antes que estritamente bilíngue (a simples dicotomia entre latim e vulgar não dá conta da experiência linguística de um homem da época). O conhecimento destas línguas que, por certo, foi adquirindo ao longo da juventude ganhou maior consistência quando, por volta de 1286, finalmente ingressou no círculo do mestre Brunetto Latini, o único de seus professores digno de um reencontro na Comédia, por tê-lo ensinado, segundo ali é dito, “como o homem se eterniza” (Inf. XV 85). Dante não foi propriamente aluno de Brunetto. Mas (sigo ainda os passos seguros de Petrocchi) Brunetto representou, não só para Dante, mas para toda a jovem intelectualidade florentina, o ponto de cruzamento entre a literatura clássica latina, a retórica e a filosofia medieval e a poesia vernacular francesa. Se o livro conhecido como Il Fiore (A Flor) é genuinamente de Dante (a autoria foi considerada duvidosa por muitos estudiosos, mas é tomada como justa por Gianfranco Contini), ele deve tê-lo escrito por estes anos de convívio com Brunetto, para quem a cultura francesa não era estrangeira. Trata-se Il Fiore, afinal, de uma paráfrase, na forma de uma sequência de sonetos encadeados, do Roman de la Rose, poema narrativo escrito em francês por Guillaume de Lorris e Jean de Meung. 

Pode-se dividir a educação de Dante em três fases, como o faz Petrocchi (as datas são aproximativas): de 1275 a 1286, são os ensinamentos de retórica e gramática que o ocupam; de 1287 a 1290, aqueles filosófico-literários, para os quais foram fundamentais a amizade com o poeta Guido Cavalcanti, assim como a estada não longa em Bolonha; enfim, de 1291 a 1294 ou 1295, aqueles filosófico-teológicos, junto às “escolas dos religiosos” (como dirá na Vida Nova), nos meses seguintes à morte de Beatriz. Coincide com o final de sua formação a escrita da prosa da Vida Nova, datável de 1294 (“ano mais, ano menos”, segundo um dos grandes especialista no texto, Guglielmo Gorni)20. Os poemas, ali recuperados e emoldurados com a prosa narrativo-exegética, haviam sido compostos nos dez anos anteriores. 

*

Afora a criação da Comédia (o que é quase como dizer “afora a criação de um mundo”), os fatos principais da vida adulta de Dante concernem ao seu envolvimento com a política. Dante foi um poeta e também um intelectual de primeira ordem21, como o provam os tratados que escreveu em latim nos anos de exílio (De vulgari eloquentia, sobre a língua italiana por vir, e a Monarquia, sobre o Império universal ― ou seja, dois textos sobre objetos ideais, como já notou Robert Hollander)22. Mas foi, com o mesmo empenho, um político destacado. Num tempo de violência, política e guerra não se diferenciam com clareza, e já em 1289 encontramos Dante na batalha de Campaldino e no sítio a Caprona. Mas é mais de um lustro depois, por volta de 1295, que Dante se inscreve na Arte dei Medici e Speziali (Guilda dos Médicos e Apotecários), o que era uma exigência legal para quem quisesse ingressar na vida pública. O início propriamente dito de sua carreira política transcorre de 1° de novembro de 1295 a 30 de abril de 1296, em meio aos chamados Trentasei del Capitano (ou seja, os trinta e seis representantes das camadas mais pobres da população). No mesmo ano, assume um posto no Conselho dos Cem, que secundava os seis priores e o defensor artificum et artium na condução da comuna. No mesmo ano, Dante compõe as complexas canções que conhecemos pela denominação (devida ao pensador oitocentista Vittorio Imbriani) de rimas “pedrosas” (“petrose”). Nelas, vai muito além do seu estilo lírico juvenil, trocando a doçura pela aspereza de sons e imagens.

De 1298 a 1303, a atividade literária de Dante reduz-se a quase nada, e problemas financeiros passam a afligir-lhe. Mas é sobretudo o governo de Florença, em crise desde 1299, que o perturba. Naquele ano, Corso Donati, líder dos Guelfos Negros (e primo da mulher de Dante, se ela era mesmo uma Donati), é exilado. O ano de 1300 ― ano em que Dante situará a ação da Comédia ― é não menos que frenético: em 7 de maio, Dante é designado embaixador em San Gimignano; em 13 de junho, elege-se como um dos seis priores; em 23 de junho, eclodem as hostilidades entre as facções políticas florentinas, e o conflito no interior do partido dos Guelfos, entre Brancos e Negros, resulta em quinze políticos de ambas as facções (entre os primeiros, Guido Cavalcanti) banidos pelos priores (ou seja, também por Dante); em julho, ocorre um atentado contra o núncio papal, e os Negros são banidos da cidade; em setembro, termina o período de Dante como prior, e os novos priores revogam o banimento dos Brancos, o que é interpretado pelo Papa como ofensa. Em 19 de junho de 1301, Dante se bate, solitariamente, contra todo o Conselho dos Cem, opondo-se à concordância florentina em guarnecer as tropas papais em Maremma. Podemos ver aí a causa provável de sua posterior condenação pelos Negros. Em outubro do mesmo ano, uma delegação florentina vai ao Papa, e possivelmente Dante é um dos seus integrantes. Em novembro, os Negros saqueiam Florença, e Charles de Valois, que apóia o Papa devido à promessa deste de coroá-lo imperador, entra na cidade. Em 27 de janeiro de 1302, em meio a uma grande crise política, Dante é banido de Florença por dois anos. Uma multa de 5 mil florins é estipulada, caso queira retornar; no entanto, em 10 de março, a sentença de Dante, junto com as de outros 14 exilados, é mudada para pena de morte. Se regressasse a Florença, seria queimado vivo. A partir de então, Dante erra pela península, de corte em corte, atuando sobretudo como conselheiro político. Os mais largos períodos são aqueles passados em Verona, junto ao príncipe Cangrande della Scala, de 1312 a 1318, e em Ravena, com Guido Novello da Polenta, de 1318 (ou 1319) a 1321. Nesta última cidade, graças à generosidade do podestà, Dante pôde finalmente ter de novo a seu lado a mulher, seus filhos e mesmo alguns de seus netos. Guido Novello não garantiu apenas o sustento de Dante, mas também comprometeu-se com o futuro de seus descendentes, o que, com certeza, tornou menos intranquilos os últimos anos do poeta. Ao seu redor, também estavam agora amigos e discípulos como Pier Giardino, Giovanni Quirini e Bernardino Canaccio. Giovanni del Virgilio, acadêmico de Bolonha, mostrou-se contente em visitá-lo; e foi seguido por outros da mesma universidade. O reconhecimento da grandeza da obra dantesca pela intelectualidade da península começava a ganhar força. Dante jamais abandonou a intenção de retornar a Florença; antes, depositava no seu grande poema a esperança de que reabrisse as portas da sua cidade. O Paraíso, acreditava, talvez fosse propício para isso.

No entanto, em 1315, o poeta rejeita uma oferta de perdão pelos florentinos, que estavam sendo atacados pelo líder gibelino Uguccione della Faggiuola: a proposta era de que Dante poderia retornar se pagasse uma multa bem menor que a inicialmente prevista. Preferiu permanecer no exílio para não admitir uma culpa indevida. Numa comovente carta a um amigo florentino (provavelmente um religioso, daí Dante chamá-lo pater), explica as razões de sua recusa: 

Não é este o caminho de retorno à patria, ó meu padre; mas se um caminho diverso, por vós ou por outros, se encontre que não desmereça a fama e a honra de Dante, eu o aceito sem lentidão; e se nenhum caminho for encontrado para o retorno, nunca mais entrarei em Florença. E por que não? por acaso não verei onde estiver a luz do sol e dos astros? por acaso não poderei meditar sobre as dulcíssimas verdades onde estiver debaixo do céu, sem que antes o povo florentino me faça retornar, sem glória e, na verdade, com ignomínia? Nem, por certo, o pão faltará.

Dante nunca mais retornaria a Florença, mesmo depois de morto: Ravena sempre se recusou a devolver os ossos do poeta à cidade natal que o repelira. No entanto, hoje, entre os túmulos de florentinos célebres em Santa Croce, encontra-se um dedicado a Dante, vazio ― um cenotáfio, no qual se lêem, inscritas na pedra, as mesmas palavras com que Virgílio é saudado na Comédia: Onorate l’altissimo poeta (“Honrai o altíssimo poeta”).

  1. É em atenção ao título original de Dante que, neste livro, se fala em Comédia, preferencialmente à versão mais conhecida – e, em alguma medida, imprópria – do título, Divina comédia.[]
  2. Francesco D’Ovidio, Studii sulla Divina Commedia, Milano e Palermo: Remo Sandron, 1901, p. XVI.[]
  3. Friedrich Schlegel, Conversa sobre a poesia: e outros fragmentos, trad. Victor-Pierre Stirnimann, São Paulo: Iluminuras, 1994, p. 40.[]
  4. T. S. Eliot, “Dante”, em Selected Essays 1917-1932, New York: Harcourt, Brace and Company, 1932, p. 225.[]
  5. Risorgimento é como se costuma chamar o período histórico entre o fim do século XVIII e o ano decisivo de 1870, no curso do qual ocorre o processo de formação do Estado italiano unificado. Também se nomeia assim o complexo cultural correspondente a esse período.[]
  6. Assim – podestà – se designava o chefe da comuna medieval, responsável por fazer justiça e por guiar o exército na guerra.[]
  7. Tradução literal, sem preocupações formais, do original de Sacchetti: “Or è mancata ogni poesia / e vòte son le case di Parnaso, / po’ che morte n’ha tolto ogni valore / […] / Come deggio sperar che surga Dante, / che già chi ’l sappia legger non si trova? / E Giovanni, ch’è morto, ne fe’ scola”.[]
  8. Ou, de acordo com o extenso título original latino para esta obra escrita em vernáculo, De origine, vita, studiis et moribus viri clarissimi Dantis Aligerii florentini poete illustris et de operibus compositis ab eodem (Da origem, vida, estudos e morte do ilustríssimo Dante Alighieri, famoso poeta dos florentinos, e das obras compostas por ele).[]
  9. Augusto de Campos, Linguaviagem, São Paulo: Companhia das Letras, 1987, pp. 168-171.[]
  10. Nicola Zingarelli, La vita, i tempi e le opere di Dante, Milano: Vallardi, 1931, v. 2, p. 1329.[]
  11. É inesquecível a formulação sintética de Boccaccio: Fu il nostro poeta […] d’animo alto e disdegnoso molto (“Foi o nosso poeta […] de alma elevado e muito desdenhoso”). Retomou-a, em termos quase idênticos, Giovanni Villani: Questo Dante per lo suo savere fue alquanto presuntuoso e schifo e isdegnoso (“Este Dante, pelo seu saber, foi um tanto presunçoso e exigente e desdenhoso”).[]
  12. Giorgio Petrocchi, Vita di Dante, Roma e Bari: Laterza, 1997, p. 9.[]
  13. Boccaccio esclarece que há dois tipos de “pastores espirituais”: o primeiro é aquele dos que “apascentam as almas dos viventes da palavra de Deus” (“e estes são os prelados, os pregadores e os sacerdotes”); o segundo é o “daqueles que, de ótima doutrina, ou lendo aquilo que os passados escreveram, ou escrevendo de novo o que lhes parece ou omitido ou não claramente demonstrado, informam às almas e aos intelectos dos ouvintes ou dos leitores” (e estes “geralmente doutores […] são chamados”).[]
  14. E este número nove, recorrente na Vida Nova, deve ser entendido antes simbólica que documentariamente.[]
  15. Tratava-se do assim chamado Sacro Império Romano, tentativa de reviver, anacronicamente, as glórias da antiga Roma imperial. Voltaire zombou desse esforço de ressurreição, afirmando não ser este “nem sacro, nem império, nem romano”.[]
  16. Purg. VI 76-87. Valho-me, aqui, da tradução de Vasco Graça Moura, com alguns reparos quanto à pontuação (Divina comédia, São Paulo: Landmark, 2004, p. 357).[]
  17. A divisão entre Guelfos e Gibelinos não é própria da Itália, mas representa o transplante para o solo italiano de uma cisão bem mais ampla no seio do Sacro Império Romano (que era, na verdade, predominantemente germânico: daí alguns historiadores falarem em “Sacro Império Romano-Germânico”). Os dois partidos surgiram no século XII, na Alemanha: os Guelfos apoiando a dinastia dos Welfen (da Baviera), e os Gibelinos apoiando a dinastia dos Hohenstaufen (da Suévia, mais precisamente do castelo de Waiblingen, de onde veio o nome do partido). Welfen e Hohenstaufen encontravam-se, então, em luta pela coroa imperial, depois da morte, em 1125, do imperador Henrique V, que não deixou herdeiros diretos. Em 1133, os Guelfos conseguiram pôr Lotário, duque da Baviera apoiado pelo Papa, no trono da Alemanha. O uso dos termos Guelfo e Gibelino para designar partidos italianos só começou quando o Império estava a cargo de Frederico I (Frederico Barba-Ruiva, ou “Barbarossa”, como o chamaram os italianos). Eleito rei em 1152, coroado imperador em 1155, Frederico empenhou-se em reafirmar a supremacia imperial na Itália, supremacia que as comunas haviam abalado com o apoio do Papa. É então, neste período de consolidação do poder dos Gibelinos, que os termos se firmam na Itália. Vale frisar que a contraposição entre Guelfos apoiadores do Papado (mas não sempre, preservando certa independência na sua luta contra os privilégios dos nobres) e Gibelinos apoiadores do Império serviu ao equilíbrio do poder na política das comunas italianas, dificultando que ou o Papa ou o Imperador se impusessem absolutamente.[]
  18. O contrato se perdeu, mas Gemma o cita num documento bem posterior, de 1329, no qual reclama a restituição de parte dos bens confiscados de Dante, parte referente ao seu dote.[]
  19. André Capelão, no texto que é conhecido como Tratado do amor cortês, afirma que “se dois amantes se unem pelo casamento, o amor entre eles desaparece repentinamente” (trad. Ivone Castilho Benedetti a partir da trad. francesa de Claude Buridant, São Paulo: Martins Fontes, 2000, p. 219).[]
  20. Guglielmo Gorni, “La Vita Nova nell’opera di Dante”, em Dante Alighieri, Vita Nova, ed. Guglielmo Gorni, Torino: Einaudi, 1996, p. XX.[]
  21. “Ninguém mais que Dante exaltou, na Idade Média, a ‘nobreza’ do intelectual. Não chega ele a colocá-la acima de uma nobreza de sangue e de títulos, não obstante ser definida por Frederico II como a ‘posse de antigas riquezas’? Esse elogio do ‘intelectual’, porém, não está originariamente associado a nenhum credo social e a nenhuma consciência de ‘classe’ – ainda que nascente” (Alain de Libera, Pensar na Idade Média, trad. Paulo Neves, Rio de Janeiro: 34, 1999, p. 253).[]
  22. Robert Hollander, Dante: A Life in Works, New Haven e Londres: Yale University Press, 2001, p. 150.[]

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